quinta-feira, 7 de março de 2013

Inconcebível


Ele estava caminhando para sua casa, como sempre fazia. O dia estava bonito, ensolarado, com crianças brincando na rua e donas de casa jogando conversa fora.
Era raro ele chegar tão cedo assim do trabalho, mas se o chefe libera mais cedo, tem que aproveitar.
Ficou imaginando como a esposa ficaria feliz em passar um tempo a mais com o marido, e como seria gostoso finalmente conseguir jogar basquete com o filho, coisa que há muito tempo marcava, mas não conseguia.
Colocou a chave na fechadura para abrir a porta. Mas algo estava errado. Estava tudo silencioso demais naquela casa. Cadê a mãe gritando com um filho que não para de correr?
Por um momento teve medo desse silêncio. Mas mesmo assim precisava entrar em casa.
Abriu a porta vagarosamente, e foi observando. Tudo estava no lugar, mas havia um cheiro estranho no ar...Um cheiro estranho, que não era agradável, e não conseguia identificar.
Abriu a porta e entrou. O silencio continuava, apenas cortado pelos batimentos dele, que estavam cada vez mais fortes.
Foi seguindo o cheiro em direção ao quarto de seu filho. Os batimentos continuavam acelerados, e ele não tinha coragem de gritar o nome do filho ou da mulher, pois tinha medo de não ouvir resposta.
Abriu a porta, que estava encostada, e aqueles segundos parecerem uma eternidade. Quando começou a ver tudo banhado em sangue, o desespero já começou a tomar conta de seu ser. Por um momento, travou. O medo de descobrir de quem era aquele sangue estava muito grande.
Finalmente, em um impulso, abriu a porta com tudo. Um grande alivio, pois lá havia um corpo, mas não era sua mulher nem seu filho.
E então surgiram as perguntas: quem era aquela pessoa? Quem a matou? Porque estava dentro de sua casa? Pensando nisso, escutou passos na escada, e decidiu se esconder, por uma reação incondicional de medo. Escutou vozes. Era sua mulher, sim, ele reconhecia a voz dela. Mas ela estava estranhamente calma. Será que ainda não tinha visto o corpo? Começou a prestar atenção ao que ela dizia:

-  ..então filho, temos que limpar tudo depois, pois o papai não sabe que a mamãe faz isso.

-  E porque você não pode contar para ele mamãe?

-  Filho, o papai não entenderia. Veja bem, meu pai me ensinou como reconhecer alguém de má índole, como matá-la, e como esconder todos os vestígios depois. Mas acho que o pai do papai não ensinou isso a ele, entendeu.


-  Sim. E o que é isso mesmo?

-  Água oxigenada. Serve para limparmos o sangue do seu quartinho. Da próxima vez, eu vou deixar você dar a facada final tá filhote?

-  Eba! Tá bom mamãe.



Isso era demais para a cabeça daquele pobre homem. Não havia como conceber que a esposa dele era uma assassina, e estava ensinando isso ao seu filho. Saiu de seu esconderijo, deixando a esposa bem surpresa. Ela estava com baldes e panos na mão. O silencio entre eles foi perturbador. Até que ela quebrou o silêncio:

-  Filho, seu pai é um menino mau também sabia? Ele faz coisas más quando não está conosco. Que tal darmos uma liçãozinha nele?


Então o marido percebeu que seria o próximo. E não podia acreditar nisso. Mas até entender o que estava acontecendo, a esposa já havia posto clorofórmio em seu rosto.

-  Pegue a faca filhinho. Agora é sua vez...



Conto também postado no blog Minilua: http://minilua.com/contos-minilua-inconcebivel-84/

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